domingo, 6 de abril de 2008

Os saloios

“À roda das grandes cidades vive uma população que, morfologicamente, pelo menos, parece distinta da urbana, a quem alimenta até certo ponto e a quem serve com assistência regular em necessidades, por via de regra, fundamentais. Em Paris são os maraicheres; em Roma, noutros tempos, os sabinos; em Lisboa os saloios” (do livro Leal da Câmara)

Desde que se me surgiu a faculdade de entender as “coisas”, ouvia chamar saloio àquele que era tosco, sem formação e até simplório. Outros chamavam de uma forma pejorativa “esperteza saloia”

Quando cheguei à região de Lisboa, migrado da Beira Baixa, comecei a ouvir que na zona noroeste de Lisboa existia a zona saloia. Principalmente habitantes dos conselhos de Mafra, Loures e Sintra, os “saloios” eram agricultores e artesãos nascidos e criados nessas regiões, os quais vinham comercializar os seus produtos para a cidade de Lisboa. Em tempos eles trajavam de um modo original, com roupas folclóricas e botas. Os homens usavam barretes na cabeça e a barba era do tipo suíças, que deixavam apenas o queixo a descoberto. As mulheres vestiam compridas saias coloridas, botas ou tamancas e mantéus na cabeça.

rancho folclórico representando a gente saloia

Interrogava-me muitas vezes donde provinha a palavra saloio, pelo que a curiosidade me levou a consultar nas bibliotecas os livros antigos da zona. Um deles, com o título “Leal da Câmara”, um estudioso das gentes saloias, deu-me as respostas que ambicionava.

As origens

“Quando D. Afonso Henriques, com ajuda dos Cruzados, tomou a cidade, estava ela repleta de mouros, repleta como um ovo. Explica-se: não teria sido outro o lugar de confluência dos fugitivos. Osberne refere que foram contados em Lisboa nada menos de 154.000 homens, afora mulheres e crianças, o que devia pelo menos duplicar este número. Tendo em vista que a urbe se limitava ao morro do Castelo, cingida em seu âmbito pelos arrais dos opugnadores, levantados no monte de S. Francisco, a Ocidente, no monte de Santa Ana, a Norte, no monte de S. Vicente de Fora, a leste, compreendidos ainda os vales circundantes, pasma-se como podia caber tanto povo num espaço tão reduzidíssimo.

Quando os cristãos, à frente as hostes de Gulherme de Longa Espada, entraram na cidade, não tardou que começasse a carnificina e o saque. Os cruzados não tinham vindo para outra coisa, e não houve compromisso nem palavra jurada que os impedisse de satisfazer a avidez e instintos ferozes. Fartaram-se de matar nos perros infiéis os bravos combatentes, mas ainda ficou muita gente. (…..) A tanta brutalidade, como podiam responder os vencidos que não fosse amontoados nas praças, vielas (….) erguendo mãos súplices e implorando Alah?!

Assim os escravos mouriscos faziam a salah, que na gíria do fero vencedor deu lugar a saloio, o homem das rezas e das mesuras, batido vendido e tocado à chibata, ridículo e ao mesmo tempo miserando. Tal é a explicação que se côa da etimologia fornecida por Pinho Leal e que se nos afigura mais consentânea com a psicologia dos factos.”

(do livro Leal da Câmara)

Expulsos da cidade de Lisboa, despojados de todos os bens e sem ofício definido, aos mouros não lhe restou outra saída senão cavar as terras à volta de Lisboa, para assim poderem sobreviver. Desse trabalho forçado também nos ficaram os vocábulos “moirejar” e “trabalhar como um moiro”. É assim explicada a origem dos saloios.

Segundavida

13 comentários:

mary90 disse...

Olá João.
Tema interessante.
Eu sou saloia com muito orgulho, fui fabricada em Luanda e vim nascer em Loures, os meus avós moravam aí, mas tanto eles como os meus pais eram naturais do norte.
Noutros tempos diziam que a zona saloia era o celeiro de Lisboa.
A minha família nada tinha a ver com o campo, mas via casais que carregavam os burros com hortaliças e iam vender para a cidade.
Um abraço.

jo disse...

Este post está muito bem fundamentado e muito bem exposto e foi um prazer lê-lo, apesar de já saber pela "rama" deste significado. Gosto sempre de reler estes temas tanto mais que sou uma fã indefectível de Sintra e seus arredores, suas gentes e seus produtos. Um abração

arte por um canudo disse...

Excelente post segundavida.Desconhecia a origem do termo embora ouvisse muito falar dele.Um abraço

bitu disse...

Amigo Joao, é com vontade de saber, com interrogações e pesquisa que nos tornamos mais sabedores. Gostei muito do post e de saber mais sobre saloios que são pessoas lutadoras como a nossa querida Mary.
Beijo terno e resto de semana excelente

delta disse...

Com este teu tema lembrei-me da saloia mais famosa: a Beatriz Costa, nascida na Charneca do Milharado e conhecida como a saloia da Malveira :) Esta mulher, que nunca esqueceu as suas raízes quer a nível pessoal quer a nível profissional, fez questão que as primeiras filmagens de "A Aldeia da Roupa Branca" fossem realizadas na Feira de Santo António da Venda do Pinheiro em 13 de Junho de 1939. Aqui vivia-se o espírito das "aldeias da roupa branca" que até aos princípios do século 20 se viveu na região, nomeadamente na Charneca e na Venda do Pinheiro, em cujos rios e fontes eram lavadas as roupas que as "freguesas" de Lisboa "davam ao rol".

Deixo aqui a canção que penso ficar muito bem neste tema :)


Aldeia da Roupa Branca

Saudações saloias :)

Magui disse...

O que eu gostei é " trabalhar como um mouro".Aqui no Brasil se usa muito.
Dá uma passada no meu blgoue para ssinar uma petição importante.Seus visitantes também estão convidados.

Anônimo disse...

É caso para dizer, que passados tantos anos, temos todos um pouco de saloios.

Mar disse...

Muito interessante e inteligente essa tua viagem ao mundo do povo saloio Jam. E de quebra estou lendo um recado da tua amiga mary90 com origens saloias, tudo haver nessa fabricação que não para. Parabéns pela postagem Jam, cultura da hora.

marius70 disse...

Os saloios que aqui tão bem retratas tanto às suas origens como na crueldade com que os cristãos trataram os outroras infiéis, (agora é ao contrário e os cristãos de hoje chamam ao islamismo de fundamentalismo, antes, no tempo das cruzadas não era) são, como todos os povos que constituem este país um povo trabalhador e, eram eles, que saciavam a sede e a fome aos lisboetas e aos nossos Reis mas isso são outros contos de guerras de alecrim e manjerona em alcovas saloias. :)

Agora vou-te contar a história de um burro, o burro do Ti António.

O Ti António, saloio de Loures, durante anos foi levando os seus produtos para vender ali no Mercado de Entre-Campos (hoje desactivado). Ainda o sol não nascia e ao vento, chuva ou frio, lá ia a carroça Lumiar acima, pachorentemente até ao mercado. Depois da venda feita lá vinha o Ti António por Lumiar abaixo a caminho de Loures. Isto durante anos. No entanto o Lumiar ia sofrendo transformações. Os semáforos implantados, aumento do trâfego automóvel mas o burro do Ti António continuou impávido e sereno a percorrer esse caminho.

Podes não acreditar João, mas ia eu muitas vezes para o emprego (também morava em Loures) e muitas vezes vi o Ti António a dormitar com as rédeas na mão e o burro parado no semáforo vermelho. Quando abria o verde, Ti António continuava a dormitar e o burrito lá ia e só parava quando chegava ao local onde moravam.

O Ti António era um amigo da casa. Foi uma perda a sua morte, pois com ele, morreu mais um pouco da tradição saloia.

Um abraço

Anônimo disse...

Olá João!
Já havia uns dias valente que não tinha oportunidade de por aqui passar a vista :) é com refinado prazer que vejo que por aqui o tempo não pára. Achei sublime esta sua exposição, já a ouvir por outras palavras, por outros modos mas é sempre refrescante mais uma "definição" atraves do olhar de outro. Muito bonito :) Deixo um beijinho e os votos de que tenha uma óptima semana. Pedra da Lua

Madalena e Gonçalo disse...

Olá João
Gostei muito do teu texto que esta de facto interessante e fundamentado.
Também me interrogava sobre a origem do termo saloio.
Mas creio que é mal aplicado quando é encarado de forma perjorativa.
Todos nos merecem o mesmo respeito, sejam eles de fato e gravata ou de tamancos
O que conta é o que somos e sentimos
E há para ai tanto senhor de coração tão saloio no pior que o termo tem
Um abraço e convido-te a conhecer o nosso blog

madalena e gonçalo disse...

Desculpa
Corrigindo o link para que nos conheças

Anônimo disse...

Sou saloia. Mas o meu caso é um pouco diferente. Segundo tem passado das gerações, a minha família ficou com terras nessa zona, passando, então, a ter esses mouros a trabalhar lá. Muitos erros foram cometidos, tanto pelo excesso de álcool como por ignorância, e a minha família caiu em desgraça. Neste momento somos maioritariamente agricultores.